terça-feira, 29 de janeiro de 2013

sobre o sentir

ana maria se preocupava muito com a forma com o jeito com a maneira que ia morrer. sabia -- na verdade pensava que sabia, então, na verdade, imaginava -- que morreria de uma forma serene tranquila quase-angelical. estava errada, verificaria na hora do seu último desfecho. sabia que seus capítulos deveriam estar chegando ao fim, visto a tremenda falta que com ela o mundo tinha: sentia falta de amor sentia falta de toque sentia falta de sentir. no dia em que seu dia chegou ao último dos fins, ela não acreditara: aquela era a primeira vez em que ela conseguia focar os pensamentos em outra coisa diferente da usual obsessão com sua morte. a maquiagem impecável a fazia parecer uma artista de cinema dos anos sessenta & a roupa que vestia a deixava com certo glamour, também condizente com a época mencionada. quando terminara de se aprontar, olhara no espelho e sentira aquela que seria sua última dor sua última súplica de vida sua última vontade seu último desejo e último ensejo de reparação. com um ataque cardíaco fulminante, ana maria deixara a terra como conhecia: integrara o mundo cósmico universal e tivera de volta aquilo que mais sentia falta: voltara a sentir: simples e puro, o sentir.

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