terça-feira, 20 de novembro de 2012

amélia & seu cigarro

amélia fumou aquele cigarro como um preso se agarra à sua última refeição, quando condenado à morte. o primeiro trago trouxe um repudio instantâneo & muito natural: uma expressão ruim, um cuspe, outra tragada. esta, trouxe um leve tontear, uma sensação de que a liberdade existe e não é exagero. amélia dizia isso à psiquiatra. estava sem fumar há seis anos, e não resistiu diante uma bebedeira de comemoração aos trinta e três. a psiquiatra dizia que não era exagero e que sabia disso, mas que a imagem era muito maior na mente dela. e era. amélia tentou livrar-se do vício algumas vezes. na última, não tentou. parou. não fosse a recaída recente, estaria há quase dois mil e duzentos dias sem acender um só cigarro. amélia brindou a liberdade e fumou outro cigarro em seguida, seguido de outro e mais um. uma parada na conveniência e um maço foi parar em seu bolso. dá uma sensação de poder & subestimação ao mesmo tempo, disse amélia ao justificar a compra do item & é uma situação simplesmente psicológica esta, respondeu a psiquiatra. durante a sessão, amélia fumou dez cigarros - e a psiquiatra, sete. depois dali, amélia seguiu para casa, fumou os seis cigarros que ainda restavam em seu maço e parou. talvez por mais seis horas. talvez por mais seis anos. 

Nenhum comentário: