quarta-feira, 27 de junho de 2012

a paz de estar em paz

enquanto eles andavam ele dizia que seu maior sonho era ganhar na loteria. num rompante de interesse, falso, mais tarde ficaria evidente, ela perguntara nossa, sério?, que legal, e ele respondera numa velocidade ímpar sério, mas nunca joguei, sabe?. diante do impasse em que ficaram - ele devaneando no seu mundo de ganhador de uma bolada imensurável de dinheiro e ela numa tristeza profunda - ela tivera ciência da realidade dele: ele sonhava: apenas. os dois se conheciam há algum tempo, se suportavam há pouca data e estavam metidos num misto de amizade colorida. sem sexo, ela ressaltara, não gosto de sexo, não faço sexo, nunca fiz sexo e não quero saber de sexo. ele, sozinho no mundo, pensou que se adaptaria. e se adaptara. casaram-se. todas as noites, ele saia para dar uma volta com os dois cachorros do casal e para falar com as estrelas sobre seus planos. os planos envolviam sempre o montante gigante de dinheiro e um adendo eloquente de como sua vida mudaria. quem sabe ela até mude de opinião sobre o sexo, sobre fazer na verdade amor comigo. voltava para casa com um sorriso no rosto, apostando nas hipóteses que criava. num desses encontros com as estrelas, pensara que talvez pudesse convencer sua então mulher a ter um sentimento mais íntimo com ele. voltara para casa mais cedo e ela estava sentada na cama, com uma mala arrumada. mas para quê esta mala em cima da cama, maria?, perguntara arfando por ter voltado correndo. não é nada, não, só significa que você voltou cedo demais para casa, mas como assim, maria?, simples assim: você sai para ter seu encontro com suas estrelas, eu tenho meu encontro com meu futuro, mas não estou te entendendo, maria, o que queres dizer com isso?. ela levantara da cama, abrira a mala e começara a guardar suas roupas. eu não tenho interesse em você, mas sei que isso te devastaria, pensara. não dissera. ele insistira. onde vais com esta mala, maria?. não vou a lugar algum. sento com ela ao meu lado e penso no meu futuro, apenas. mas neste futuro estou eu ao seu lado?, interessado ele perguntara. não, pensara. não dissera. claro, por isso estou guardando minhas roupas. e não mentira. em todas as noites em que ele saia para andar com os cachorros para planejar com as estrelas um futuro melhor e com dinheiro, ela arrumava sua mala e começava a planejar com seu mais íntimo um futuro melhor e com amor. seu problema é que você não consegue ser feliz, ela bradara no instante em que ele apagara a luz do abajur naquela noite. no dia seguinte, o universo tinha se encarregado de um ajuste naquela situação. bem cedo, ele arrumara sua mala e partira: começaria a procurar a felicidade ao invés do dinheiro. ela acordara, notara sua ausência e posteriormente vibrara: poderia ser feliz. dirigira-se à loteria e jogara: ganhara: vagara desde então rica e com um pesar gigante: ela não sabia, mas não conseguia ser feliz. e mais: fizera miserável aquele que a amava.


depois de anos, ele ainda era visto sob a ponte mais suja da cidade, com seus dois cachorros e um cobertor surrado, sempre a conversar com as estrelas e a planejar seu futuro. apesar de tudo, e até da fome (de mundo, de sexo e de amor), parecia feliz. ela, sempre sentada nas camas mais confortáveis do mundo, comendo do melhor, conhecendo e provando daquilo que nunca havia tido oportunidade, jamais experimentara do amor. ah, o amor. o amor a fizera amarga na abundância e o fizera feliz na miséria. procurara por anos a paz nos outros, mas não entendera que a encontraria em si mesma.

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