domingo, 3 de junho de 2012

O disforme mundo de Jayme

Jayme sempre pensava que poderia ser diferente. Ou, melhor: que as coisas poderiam ser diferentes. Não conseguia traduzir em significáveis & simples frases o que o acometia por dentro: da atordoante sensação de satisfação à fatídica sensação da solidão. Desdobrava-se em dois: por vezes três: arrependia-se, vez ou outra, e, num rompante descabido, tornava-se quatro. Entender? não entendia nenhum. No entanto, nem mais tentar tentava. Estava cansado de correr tanto e nem ao menos mover-se um centímetro. Mas, sabia, não era bobo nem nada. A sua maior corrida era muito mais subjetiva & filosófica do que tudo o que de mais concreto conhecera na vida. Sabia que por mais que fosse algo imaginável somente no mundo dos seus eus (ou do seu imaginário mundo real), aquela subjetividade & aquela filosofia sempre fora o que de mais certo & sólido tivera em sua vida: suas cores formas jeitos trejeitos malfeitos & tudo o que havia nas entrelinhas bordas arredores e conteúdo disso tudo. Pobre Jayme sabia, desde cedo, que não seria fácil sobreviver a ele mesmo. Talvez, claro, pelo descaso sempre ser tão nítido & vívido em sua vida.

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