terça-feira, 6 de dezembro de 2011

cry when you get older

tina tinha uma tara sexual que não contava à ninguém. e, pudera, galgados pelo estereótipo ao qual a sociedade a enxergava – a frágil e doce e responsável e dedicada tina – a menina não podia ser. menina,  não, mulher, rispidamente bradara numa tarde cinza feia & chata. fora quando dera seus primeiros passos em busca de seu desaprisionamento.  foi mais ou menos quando começara a fumar. tinha dezessete anos tinha fugido de casa tinha medo. tinha tido. tina perdera-se na vida. de transloucada psicodélica perdida no meio de viagens transcendentais cujo veículo fora o próprio corpo, à fissuras paranoias e angústias fomentadas pelo ópio pelo pó pela vida. experimentara tudo (ou quase): experienciara, principalmente, o que não queria o que desconhecia o que temia. o que não experimentara, como pudera?, pensara, era aquela tara sexual abarcada ainda na adolescência. conhecera mulheres, participara de alguns ménage à trois,  fora à orgias. não gostara das experiências homoafetivas intensas – namorara ana, maria e ana maria – mas vez ou outra estava de beijinhos com amigas. nos ménage que fizera, queria sempre mais a atenção de uma das partes: frustrava-se ao partilhar. das orgias, não gostava de comentar. na última delas, tentara realizar sua maior fantasia sexual: não conseguira. queria muito torná-la real e perdera-se na matemática real do dia em que esse momento chegaria. o silêncio da infância, o ecoante grito do final da adolescência e o frenesi da vida adulta sempre cobriram uma cicatriz que tina nunca mostrara ou falara a ninguém. bem como sua tara sexual.

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