terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mudanças

Tina vivia sozinha naquela casa & cidade há tempo demais para não saber quando parar de fazer mal a si mesma. Todo fazer mal a si mesmo é consciente, pensava. Ela estava sentada próxima à janela quando tudo acontecera. Melhor eu apagar este cigarro antes de ir lá fora ver o que foi que aconteceu.

Numa outra casa perto dali, Maria olhava pela janela quando tudo acontecera. Eu não acho que estou preparada para ir lá fora ver o que foi que aconteceu. Após ter este pensamento, resolvera sentar-se em sua poltrona, cobrir seus pés e voltar seus olhares para a televisão - mesmo que sua atenção toda estivesse vidrada no fato que acontecera lá fora.

Tina e Maria eram vizinhas, mas pouco se suportavam. Primeiro, ambas foram infelizes e tiveram casamentos infieis e sem amor. Tina amara Maria desde que a conhecera quando ainda jovens. Maria sentira este mesmo amor por Tina, mas não acreditava que uma pessoa poderia deitar-se com outra do mesmo sexo. Proibira-se de qualquer toque. Qualquer contato.

No momento em que aquilo que aconteceu lá fora acontecera, Tina dirigira seu pensamento à amada. E decidira que aquele momento seria seu último de 43 anos de cigarros incontáveis. Maria, agora com a coberta quase nos joelhos, já havia mergulhado em seus pensamentos. Tina e o que acontecera lá fora eram vagas lembranças.

Num impulsivo ato, Tina saira de sua casa, dera uma boa olhada naquilo que acontecera lá fora, fora até a porta da casa de Maria e tocara a campainha. Maria, lá dentro, acordara e se pegara devaneando com os olhos abertos. Levantara-se, ajeitara-se no espelho e caminhara em direção à porta. Neste meio tempo, o que quer que fosse que tinha acontecido lá fora, acontecera de novo. E com um barulho estrondoso. Mas, Maria não se importara. Abrira a porta. Era Tina.

Oi, Tina, falara brevemente num tom solene.
Antes que você diga algo, Maria, gostaria apenas de dizer que você é importante para minha vida.
Oh.

Maria impressionara-se com o que acabara de ouvir e nada conseguira dizer. Tudo que ela se lembra foi de ter convidado Tina para entrar em sua casa. E uma barreira tão grande fora quebrada dentro de si que tudo o que acontecera lá fora, mesmo que duas vezes e a última com aquele barulho tão estrondoso, não fazia mais sentido. Não tinha importância.

Tina e Maria aceitaram o amor que sentiam uma pela outra e, depois de tantos anos com a consciência de estarem fazendo mal a si mesmas, pararam com isso. Todo fazer mal a si mesmo era mesmo consciente, elas  finalmente concordaram.

2 comentários:

Daniel Goulart - English Cultures disse...

Muito bom o conto, Lucas. Realmente, todo fazer mal a si mesmo é consciente. Parabéns!! Muito interessante...

Daniela Ortega disse...

Foi preciso acontecer alguma coisa pra coisa acontecer.