quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A calmaria da confiança.

Para meus amados pais, irmãs e os poucos íntimos de minha vida

Regina era conhecida pelos poucos íntimos em sua vida por Gi. Gi passara a vida solteira, mas não por opção. Tentara, tentava, tentou. E até tentaria novamente, não fosse sua última decepção. Chegara à conclusão de que o ser humano perdera parte de sua essência. E ela admitia que conseguia afirmar isso por enxergar em si um tipo de perda vital. 

"Se você me ama mesmo, me diz, porque você não me perdoa?, eu faço tudo o que você quiser, prometo-te a vida em troca".

Ela se lembrava das palavras covardes que escutara no fim do último relacionamento. Gi era considerada uma mulher forte, determinada e grande parte de suas escolhas e decisões eram criticadas pelos mais próximos de seu convívio por serem duras e quase nunca flexíveis. 

"Foi você quem escolheu isso, Ana. Do not put the fucking blame on me. Além disso, você me provou que é o tipo de ser humano que não vale a pena".

Com um eco grande na mente, tentava recolocar seus pensamentos em ordem à medida que ia se lembrando daquele fim de tarde quando tudo acontecera. Ela fora forte. Amava amara -- já não mais --, mas não perdoaria. Ela não fora condicionada a isso. Pensava ser má em sua essência, afinal, perdoar é uma das características mais nobres que o ser humano poderia desenvolver adquirir possuir. Pelo menos é o que ela pensava e o que diziam à sua volta.

"Eu cometi um erro de julgamento, como você pode ser tão insensível?"

Ela lembrava como se fosse hoje o tamanho da ira e da fúria que sentira ao ouvir este insensível sair dos lábios de sua então amada. Ela não acreditava ser possível o arrependimento. Pelo menos não no caso de Ana. Ela lembrava de ter dito com uma ironia gritante gigante angustiante que achava toda essa situação peculiar e engraçada. Adicionara que cada suplica cada pedido de perdão cada tentativa simulacra -- pois sim, nada além de falsas tentativas e de um falso arrependimento ela conseguia enxergar -- vinda de Ana, a irritava, a tirava do sério. "Tenha dó, Ana". "Não faz isso, Gi".

Gi, ainda com o pensamento imerso naquela conversa, lembrava-se de ter perdido a vontade de tentar: esta era sua perda vital; a perda de uma grande essência humana que viu esvair-se sem nada poder fazer. "Você não tem ideia do que quer quis ou pode vir a querer. Você consegue ser o tipo mais sujo de ser humano que habita nosso mundo, aquele que, sabe-se lá como, consegue mentir pra si  mesmo". Ana, tentando coexistir no jogo de palavras de Gi, limitara-se a responder um "eu sei o que eu quero; você".

E foi aí que Gi conseguira dizer a última sentença que da sua boca sairia à Ana sobre o conturbado fim de relacionamento. "Nesse caso, vamos colocar desta forma: no que diz respeito a mim, suas vontades nada mais são do que inoportunas lamúrias e infortunas mentiras inócuas. Não existe mais nosso em nossos meu e seu. Mais uma vez, digo: foi você quem quebrou o fino cristal de confiança de nossa relação. E cristal não se remenda. Sem confiança, não existe possibilidade de qualquer tipo de relação sadia".

Gi, aos 40, ainda se lembrava dessa história e agradecia Ana -- em silêncio -- por ter lhe ensinado com a dor o quanto a confiança se faz necessária na vida. Confiança esta, aliás, que Gi fez questão de cultivar e apresentar como seu maior tesouro. Passou a vida cuidando dos cristais finos de confiança que partilhava com seus pais irmãs e os poucos íntimos que tinha em sua vida. E sabia: não tinha agido errado. Quem se importa, confia. E a reciprocidade nada mais é do que natural.

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