quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Aquela tarde diferente.

H. chegou em casa como fazia sempre: finzinho da tarde, cabeça cheia, corpo cansado. T. estava em casa, como de costume: arrumando as almofadas, o tapete da sala, preparando o jantar. D. não estava em casa, como de costume, mas chegaria em casa mais cedo naquele dia, como nunca fazia. 

Quando D., enfim, mais cedo chegou naquele dia, H. achou estranho. T. achou mais estranho ainda. Ninguém disse nada. Não é que H. achasse ruim por D. estar chegando em casa num horário fora do comum ou que T. achasse um absurdo tal fato, mas a rotina deles havia mudado ali. E eles notaram que a mudança acontecera. Mas, ninguém dissera nada.

D. percebera os olhares nos rostos aflitos de H. e T. Sentara. Colocara a cabeça entre as mãos e dissera, sem pensar nem um minuto e nem ter o cuidado de que tinha a atenção de todos no recinto: descobri que sou o avesso dos avessos e não sei mais como lidar com isso. H. não soube o que dizer, preocupou-se com o finzinho da tarde, sua cabeça cheia e seu corpo cansado. Sentara. T. pensara em dizer algo, tentar tranquilizar D., mas repetira o pensar e resolvera nada fazer. Três cabeças envoltas em seus próprios pensamentos e nada que nenhum pudesse dizer diminuiria a tensão evidente naquela sala. T. resolvera sentar. E falar.

Falaram sobre o tempo, sobre o nada, sobre o dia, sobre a noite, sobre as condições de suas almas, sobre. T. até tentara tocar no assunto dos avessos e perdeu-se no tentar. Talvez ser o avesso dos avessos não seja a pior coisa do mundo, D. Acho que talvez a gente devesse conversar melhor sobre este assunto e de repente seu pensamento fora interrompido: de nada você sabe nem soube e nunca saberá. Tudo o que sempre importara & importará serão trivialidades e assuntos relacionados ao isolamento do ser. Você nunca preocupou-se em ser. 

T. realmente não acreditara no que acabara de ouvir: e não acreditava no eco de sua mente: era verdade. H., assustado com a situação, tentara acalmar: não fale assim sobre T., D., você sabe que não é e novamente D. interrompera: H., você mais que ninguém deveria saber que esconder o sol com a peneira não é nada eficaz não foi e nunca será. H., claro, concordara também com o que fora discutido. A peneira - à epoca, maltratada pelo tempo de uso - era realmente seu único subterfúgio: era assim que no finzinho da tarde conseguia, com a cabeça cheia e o corpo cansado, ter um tempo para tentar, para ser, para. 

D., ainda com a cabeça entre as mãos, derramou-se. No seu derramar, H. deixara a sala para preocupar-se com seu cansaço - agora mais que físico, mental. T., ainda perplexa pelas coisas que escutara, começara a tirar toda a sujeira que havia colocado debaixo do tapete. Assim, à rotina eles retornaram naquela tarde diferente.

2 comentários:

Talles Henrique disse...

belo texto Lucas; incrivel como algumas pessoas lidam com seus problemas justamente não lidando com eles né?!

Daniela Ortega disse...

Eu gosto de ler o seu blog. As palavras aqui me fazem pensar em coisas que geralmente não paro pra pensar.