quarta-feira, 21 de julho de 2010

Rose amava João, que amava Rita, que amava... Rose.

O quadro, numa análise geral, era estranho. Rose amava João, que era apaixonado por Rita. Rita, coitada, não amava ninguém. E de vez em quando, não amava nem a si mesma. E se perguntava se algum dia seria possível ela amar alguém. Ou ter um amor-próprio. Porém, o quadro continuava feio, com Rose amando João e João amando Rita - que não amava ninguém. 

Certo dia, surpreendendo a si e a todos, Rita descobrira: amava Rose. E completara um ciclo que sempre fizera parte apenas como figurante. Rose amava João, que amava Rita, que amava Rose. Agora que descobrira que seria sim possível amar alguém - e ela ainda se arrependia de um dia ter desejado tal feito - Rita não queria mais. Ela dizia que o amor era bobo, feio e chato. Oh, Rita, pobre Rita.
Oh, João, pobre João. Oh, Rose, pobre Rose. João amava a si próprio, mas como seu amor por Rita era maior, quase sempre se esquecia disso. E a mesma coisa acontecia com Rose. Ela se amava, mas comparado ao tamanho do sentimento por João, nem que ela quisesse conseguiria notá-lo.

Entretanto, vejam só, Rose casou-se com João e tiveram dois filhos. Ela vivia num mundo onde seu marido parecia ter atingido uma espécie de santidade, pois não só ela o cultuava, mas havia ensinado aos pequenos frutos daquela relação a fazer o mesmo.

Rita... Rita estudou muito. Viajou muito. Encontrou muita gente pela vida. Hoje vive só. E ainda acha o amor bobo, feio e chato. Mesmo depois de quarenta anos. Mesmo nunca tendo provado dele. E João, que casou-se por dinheiro e pelo medo de ficar sozinho - Rita, que era quem ele queria, não poderia jamais ter! -, viveu infeliz todos esses anos. E, de uma forma ou de outra, ele também achava o amor chato, feio e bobo. Pelo menos o amor que conhecera.

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