sábado, 24 de julho de 2010

Glória e as mentiras.

Ela nunca havia parado para pensar no quanto sua vida era, no mínimo, estranha. Um marido agressivo, pai ausente e parceiro infiel era o que tinha ao lado. Seus filhos - dois, um casal - temiam à figura paterna e jamais dirigiam a conversa a ele, não fosse ele aquele a iniciar a conversa.

"Mentiras, mentiras, mentiras". Sua vida, ela concluia chorando, era feita de mentiras. Nada além de mentiras. E ela não conseguia entender o motivo. Ou os motivos. Sempre indagando se fizera algo a alguém no passado e agora estaria passando por uma punição, mas, nada. Glória era uma mulher decidida, firme e ela preferia qualquer coisa a contar uma mentira.

Seu filho mais novo - oitos anos e um mentiroso compulsivo - sempre era pego dizendo mentiras tão pesadas que Glória sentia-se humilhada por não conseguir controlar a situação. Ela, sempre tão contra mentiras.

Preferia mesmo que a verdade fosse colocada em pratos e servida como prato principal. E ela dizia sempre: "Mesmo que não lhe agrade, coma. E se delicie." E continuava: "Quando servimos mentiras, acreditem: nem que momentaneamente sejam mais saborosas, não valem a pena. O tempo - inclusive de nosso corpo - existe: e não falha."

Seus filhos já haviam decorado o discurso e às suas costas gostavam de imitá-la, fazendo aquele gesto engraçado que ela fazia com as mãos. A mais velha gostava de dizer: "É fácil enganar a mamãe, porque ela realmente acredita nisso que diz pra gente". E, logo em seguida, caiam na gargalhada imitando-a.

Glória sempre soubera de tudo. E foi por isso que começara a pensar no quanto sua vida havia se tornado estranha. Ao marido agressivo ela acostumara, mas à indiferença dos filhos, isso não, a isso ela não acostumaria jamais. E só conseguia continuar pensando nas mentiras, mentiras, mentiras...

Um comentário:

Maicom disse...

É. O martir das vidas, sempre possuirá um jeito peculiar de perturbação. Mentir, por exemplo, é trágico. Traz infelicidade e desconforto próprios.

Abraço.