terça-feira, 20 de abril de 2010

Os as.

Pode parecer um pouco estranho e difícil de ser entendido - de começo. E só é estranho e difícil - isso se for realmente estranho & difícil -, porque o as do título pode ser mais difícil de ser interpretado. Considerado este dado, continuo. O fechar dos olhos resultou num simples flash de que aqueles as, dos mais diversos tamanhos, minúsculos, num degradê centimetramente distribuídos, deveriam figurar alguma folha branca. No começo, algo por volta de fonte quatro, passando, de centímetro em centímetro, por cinco, seis, sete e por todos os números até chegar à fonte trinta e seis. Um pequeno mar de as se formou quase ali, sob os meus olhos, num lampejo de habitação de uma singela realidade diferente: habitei, mesmo que por instantes, naquela fração de segundo, o espaço sombrio de minha imaginação.


Este foi o pequeno texto encontrado na cama, perto de sua perna. Há um tempo tinha sido considerado inválido aos olhos da sociedade: ele vivia de sua loucura na sua loucura para sua loucura: o que não era e não é aceito hoje. Tentara levar uma vida dentro dos conformes alheios. Tentara, apenas. O êxito que obtivera não fora suficiente. Naquela gélida cinzenta e reta manhã na capital federal a notícia estampava a página de obituário do jornal, ao lado de um letreiro garrafal, numa tipografia romana (que aliás era parecidíssima com os as, com a diferença de estar em caixa alta, maiúscula): BRASÍLIA, 50 ANOS! Ele não vivera para parabenizar a cidade e nem para brigar com o jornal pela audácia das letras maiúsculas ao lado de seu tão minúsculo nome no jornal. Sua última obra em vida contrastava com a magnitude da cidade que contrastava com os seus vinte e poucos anos porém reafirmava o motivo de sua morte: sua loucura: talvez pelo branco em excesso pela sempre tão reta forma ou pela gélida acolhida daquela cidade.


Este é um conto que, à minha forma, felicito os cinquenta anos que a capital brasileira completa amanhã, dia vinte e um de abril.

Um comentário:

bhfcabral disse...

O jeito com que você escreve me move de uma forma que eu desconhecia. Gosto mesmo, me entretém enquanto me mostra quem és - combinação rara. Pode ser maluquice, mas sabe quando, ao final do texto, pode-se dizer do que se leu "eu entendi perfeitamente o que você quis dizer"? Pois é o caso. Bruno.