sábado, 29 de agosto de 2009

Memórias.

Consigo enxergar as lembranças como grandes galpões fora de uso. Os maquinários antigos ainda se encontram lá. Uma boa parte de caixas e entulho, também. Muito lixo. Aranhas fazem a festa no ambiente abandonado. Esteiras paradas, sujas. Animais criando-se no lixo. No momento em que a lembrança acontece, esse ambiente começa a se manifestar.

A poeira, antes evidente, desaparece. As esteiras, antes paradas, voltam a funcionar. As caixas vazias, o lixo em demasia e o entulho tomam cada um seu rumo: as caixas abrigam as mercadorias refabricadas, o lixo é tratado e o entulho limpo. O galpão fica num tipo de sintonia, preocupado somente com a re-produção dessa lembrança.

Sempre que leio que a perpetuação da espécie é a maior prova de vida que a gente pode ter, fico triste. Explico. Eu discordo. Eu acredito que as memórias são as maiores provas de que estamos vivos, provas estas que persistem até mesmo quando morremos. É certo que a perpetuação da espécie está dentro disso, pois o que é a perpetuação senão uma memória viva?

O que difere, pra mim, um momento ruim de um momento bom, são as memórias. É aquilo de que me lembrarei. E a vida é curta. E as pessoas, bom, a maior parte delas, não sabe o que é viver. Vivem estagnadas em conceitos totalmente retrógrados, defasados, incompatíveis com a realidade. Apegam-se a verdades exclusivas, que não aceitam discussão, argumentação. Lamentável.

Gosto, por exemplo, de me lembrar da minha infância. Enxergo, apesar de muito falhas e muito sujas (devido à falta de visitas a este local em mim), muitas situações interessantes. Pessoas que já se foram convivendo com as que, felizmente, ainda estão por aqui. Carinho e brigas. Uma mão que afaga e que bate ao mesmo tempo. Travessura e estresse. Tudo nessa ordem. Tudo nessa criação-anulação. Tudo nesse antro paradoxal.

E enxergo cores, também. Sinto cheiros. Falta-me o tato virgem, pois o tato de antes era, inicialmente, puro. Hoje, é diferente: o tato é apurado, já nem tão puro. Ouço sons. Músicas. Barulhos. E é tudo muito conectante.

Como no velho galpão. Antes, vazio, abandonado, sujo. Depois, colorido, limpo e ocupado. A nostalgia passa por este galpão como um gerente que verifica o andamento da produção. Quando este gerente nota alguma coisa de relevância gritante, um alarme soa: ficamos neste misto de saudades com uma sensação indescritível de querer mais, sem necessariamente ignorar o tempo que se passou.

Afogo-me, sim, em algumas lembranças. Curto a viagem, o devaneio de alguns surtos nostálgicos. Mas, uma coisa é certa: acredito na desenvoltura de todas as coisas impossíveis de se ter de volta, numa realidade incompreensível a nós.

Um comentário:

Aíla disse...

Tava pensando dia desses na saudade apertada que eu tenho de algumas pessoas e coisas. Tem umas que eu realmente vejo mais ou menos assim, um galpão abandonado, ainda que limpo, arejado. Mas outros é como se estivessem sempre funcionando, mesmo antes de eu passar por lá.
Como sempre, muito bom o texto :)
Beijo.