domingo, 19 de julho de 2009

Casamento, teatro & afins

E foi falando com os genitores, dia desses, que concordamos em uma coisa. Na verdade, uma coisa que, ao final das contas, forma uma cadeia de coisas. A sociedade é um grande teatro. A gente tem de viver atuando para os outros, fazendo o que é melhor para os olhos dos outros. E eu assumo dois pontos.

1) Tô cansado já dessa 'peça'.
2) Viver atuando para os outros significa viver sempre para os outros... E quando é que pessoas normais vivem pra si mesmos?

Com "pessoas normais" eu quero dizer o seguinte: deixando a modéstia de lado (ou se quiserem achar que não estou deixando, tudo bem), eu considero a maior parte das pessoas que eu considero amigos (e eu mesmo) not ordinary people. Tipo, não são pessoas comuns... Não são aquele tipo de pessoa que vai chegar aos vinte e cinco anos casado, com um filho, uma faculdade pela metade (se é que começou), um emprego ruim, uma vida média.

Claro, no meio das pessoas que eu me importo, mesmo que se esforcem muito, algumas delas não chegarão a um estágio maior do que o exemplo que dei. Serão pais de família bem cedo, com um emprego mediano, voltarão para o lar, esperarão o jantar, assistirão a novela das oito, farão aquele sexo papai-e-mamãe e pronto, dormirão e acordarão para a repetição deste ciclo.

E meu pensamento começa a ficar complexo. Mas vamos lá. Algumas pessoas estão tranquilas com isso. A perspectiva (ou falta de) de vida de cada indivíduo é diferente e, por termos o tal do livre arbítrio, que assim seja. Ninguém obriga ninguém a nada... e se querem, pra sempre, serem os figurantes dessa grande peça, vão à frente.

Ser o ator principal ou o vilão ou um personagem de apoio importante ou qualquer coisa figurada que represente uma tentativa de importância, é válido. Eu sempre digo que não acredito naquele tipo de pessoa mocinha-de-malhação, que é 100% pura, ingênua e boazinha. Bullshit. Não acredito que existam pessoas daquele jeito, mesmo que me provem o contrário. É uma questão de não aceitação mesmo. Eu não suporto pensar que algumas pessoas vivam sem questionar, sem lutar pelo que pensam, sem revidar alguma ação que esteja dentro de seus direitos.

A questão principal da discussão (felizmente, altamente saudável) com os genitores (e os progenitores maternos e as irmãs) girou em torno do casamento. Começou dia desses com sir Renato Russo dizendo em uma entrevista do disco Presente. Ele fala que o casamento é uma instituição falida e que a imagem de família, na época da entrevista (alguma coisa entre 95, acho), estava caminhando para o mesmo rumo. Meu pai discordou, depois concordou. Depois ficou com raiva e não quis falar do assunto. Minha mãe concordou, mas não deu muita atenção à conversa. E eu concordo e já adiciono que a família hoje em dia perdeu praticamente todas suas funções vitais. Vive nesse respirar artificial ou nessa massagem cardíaca. Um dia esgota-se as fontes e aí, adeus.

Ontem fomos a um casamento de uma prima. Assim que a cerimônia acabou, meu pai pediu ao garçom uma cerveja e me disse:
- Filho, já já chega o motivo de termos vindo ao casamento.

E eu ri. E fiquei satisfeito. Álcool é sempre uma boa. Brincadeira.

Fiquei mais feliz pelo fato de que este fato reabriu a conversa que tínhamos tido no carro, numa viagem, dia desses. A irmã mais nova disse que casamento é uma farsa e eu, um pouco alto já, disse que a sociedade inteira é uma farsa. E meu pai, fazendo-me ganhar a noite, completou:
- Infelizmente a vida é um teatro, a sociedade é só um pedaço dessa farsa. O casamento é um ato pequeno dentro deste quadro todo.

E rimos, bebemos, sorrimos, nos divertimos. Cumprimentei, como se fosse íntimo, familiares que não tinha nem noção de quem fossem. Agradeci a elogios. Esbanjei uma falsa simpatia. Bom, tudo como mandava o texto daquele dia.

2 comentários:

T. Berkowitz disse...

ja comentei mais detalhadamente pelo msn....
mas tenho que falar novamente que seus textos expressam coisas que diversas vezes ja passearam pela minha mente assim... e voce sabe exatamente como colocá-las 'no papel'... (papel virtual? ok)

<3

Daniela Dias Ortega disse...

wow, no dia, eu lá sentada... pensei alguma coisa parecida... fiquei quieta um pouco no meu canto só observando... e pensando que aquilo tudo não tinha nenhum significado na minha cultura, a minha pessoal, claro. Mas como tinha tanto significado ou aparentava ter a todos.. não digo o casamento em si, mas a coisa cerimonial... depende de qual cultura pessoal é vista. Uns choram, se emocionam, conscientemente. E outros aplaudem porque subiu a plaquinha mandando fazer isso.
Acho que prefiro não classificar o casamento como algo uniforme... igual pra todos, o daqui de casa nos faz feliz.