terça-feira, 28 de abril de 2009

DA CONVERSA NECESSITADA

E eis que ela chega e me diz que conversou com a Perverted dia desses. E pensou bastante sobre almas gêmeas, metade de laranja e tampa de panela. E que naquele instante perguntei eu, e a que ponto chegou?, sendo interrompido por alguns minutos de silêncio. Lailah se fora. Quem estava ali era Ashtray, agora com café, querendo um cigarro. Aninha logo se manifestou, afinal, era uma das coisas que tinham em comum. Andy, ainda não ativo, só ouvia de longe a conversa, mais interessado no desenvolver do que no iniciar da mesma. Ashtray deu uma longa olhada em Aninha, analisou a perturbação de Perverted e disse num só tiro que percebeu o equívoco que as pessoas cometem procurando almas gêmeas para um relacionamento amoroso e que almas gêmeas não servem para isso. Deste ponto então, eu, até então presente, desliguei-me, era hora de dar aquela voz que Andy há tanto pedia.

Andy estava ali, chocado. Ele falara de sintonia, dia desses, de um encontro, de encontros. E colocou-se a ouvi-la, depois de soltar um fucking God bem sujo. Ashtray continuou dizendo que relacionamentos amorosos dependem de pessoas diferentes, que se acrescentam. Andy, num ímpeto de tentar omitir a certeza que tinha em mente, implorou para que ela parasse de assustá-lo, uma vez na vida, vai. E ela fingiu não ouvir, ignorou-o. Almas gêmeas são gêmeas, são parceiras, se entendem, não se completam e nem se devem, continuou ela. Perverted, no que parecia falar sozinha, parou e olhou para Andy. Ele soltou um suspiro e logo em seguida um simples e aflito arrepiei aqui. Ashtray pede um tempo. Precisa do mencionado e desejado cigarro. Saem do recinto, as duas, Aninha e Ashtray. No que parecia uma sombra, depois, nota-se a presença de Perverted, no rastro das duas, com a cabeça em outro planeta.

Depois de uma longa pausa e dois cigarros cada uma, Ashtray, segura de si, disse que agora sim poderia continuar. Então ela diz, de forma mais rápida que da primeira frase que havia dito, já metades de uma mesma laranja, acredito eu que seja a forma mais triste de parceria, porque o que você busca é algo que te falta, não o que te acrescenta, simplesmente você não é íntegro para se entregar e por mais que encontre sua metade da laranja, você sempre será pela metade. Ela toma um fôlego e diz que então se criam aqueles relacionamentos obsessivos, aquele tipo de gente que diz não viver sem a sua metade. E, ironiza de forma vil, é triste, bem triste. Andy pede a vez da palavra, mas, novamente, ela o ignora, na sua imponente altura. E continua, olhando para Aninha. Já tampa de panela eu acho bem legal, mas não qualquer panela. Tem que ser uma panela de pressão. É algo que te completa? É. Mas não possui uma junção perfeita, é necessária aquela borrachinha entre as duas. Borrachinha essa que eu chamaria de mundo. É partilhar o mesmo mundo e também ter a parte física. Tem aquela válvula pra aliviar a pressão. Andy pensa, num tremendo descontrole, que bonito isso, muito. E ela continua que tem toda aquela proteção de que nada entra sem permissão, mas que escapam as coisas que, em abundância, estragam aquela bonita harmonia. Num simulacro de voltar à ativa, Ashtray num tom lailônico balbucia ainda, pensei isso... Então é isso...

E Andy começa o que parece ser a semente de uma divagação, dizendo que isso tudo que foi dito, todas as palavras, os sentidos, as correlações e as realidades existentes são de uma... e é interrompido por Ashtray, novamente.

Ela diz, olhando vagamente ao léu, já encontrei minha alma gêmea, e mantenho uma panela de pressão no fogão. Tenho que aprender a controlar a altura do fogo, de quando em vez, já que panelas de pressão também explodem, como tudo explode, tudo que está sujeito à uma reação e todos estamos, segundo Jung, e espero não descobrir que necessito da metade de uma laranja.

E então parece cair num marasmo, dando visto à uma real aceitação ao que disse.

E Andy tenta retomar o tom. Diz bem baixo que concorda sim com o que foi dito e o que não foi dito nas entrelinhas e que da sua alma gêmea ele tem certeza, porém a radiância que o acometia ali, naquele momento, era indescritível. Ele diz que não é muito bom com metáforas, com palavras, com sentimentos, mas sei que o sentido que usou para alma gêmea é o mesmo que eu. E ele volta para si com uma correção de Aninha. Aninha, que não o conhecia até então, acendia mais um cigarro e olhava para ele com um certo desprezo. E ela diz, num tom cortante, você misturou discursos diretos com indiretos e vozes ativas com passivas, você é um imprestável que nem pra tomar nota dos acontecimentos e fatos e vivências serve e se você pensa que vamos continuar a dividir de mesmo corpo pode ter certeza que não vamos não.

Aninha foi para o canto, enquanto Andy, agora cabisbaixo, olhava para o mesmo léu que Ashtray estava perdida. O que lhe sobrava em autocontrole, faltava em Aninha. E ele entendia, então, analisando as palavras de Ashtray. Apesar de viver numa realidade totalmente paralela e assumir o controle pouquíssimas vezes, sabia, também tinha sua panela. E de pressão, sorria ele contente.

Numa confusão armada, as seis pessoas ficaram a se olhar. E a desejar o entendimento, agora simples e claro, de tais coisas, a todos. Mas, em sua loucura mútua, os seis, sim, os seis, sabiam: viviam em suas realidades paralelas. E se remetiam a ela para tratar da fragmentação necessária à existência do ser humano. No final de tudo, são um só. Como gêmeos bivitelinos: foram criados de uma matriz; no caso, duas. Mas como estas duas, num parâmetro incompreensível à humanidade, foram criadas de um só, tornando-se, então, almas gêmeas, reafirmo o já firmado: no final de tudo são um só. Apenas.

Esta certeza é um dos confortos mais paradoxais da minha vida.

Diálogo parte real, parte imaginário, travado entre ela e eu. Aninha, Andy, Ashtray e Perverted são inexplicáveis partes nossas. É tudo o que vocês precisam saber, caso algo tenha ficado muito obscuro após leitura do texto.

4 comentários:

farewell, the ashtray girl. disse...

"E ela continua que tem toda aquela proteção de que nada entra sem permissão, mas que escapam. As coisas que tem abundância estragam essa bonita harmonia." = "E ela continua que tem toda aquela proteção de que nada entra sem permissão, mas que escampam as coisas que, em abundância, estragam aquela bonita harmonia."

seu imprestável!
só pra defender a aninha, claro.

saiu como eu esperava. como eu sentia. minhas palavras soam de um jeito gostoso quando ditas por você. perdem esse tom altivo nojento que emprego.
em breve abusaremos um pouco mais dando espaço a estes contrastes.

a perverted não me deixa terminar. vou jogá-la no twitter e pronto.

um beijo.

farewell, the ashtray girl. disse...

e sabe, eu acho um saco esses comentários do blogger, que deixam o nome de quem está postando em cima.
os nomes sempre são em baixo. humpf
assim ó:

Farewell,

the Ashtray Girl.

(é, a perverted não se contenta com pouco)

Daniela Dias Ortega disse...

hm. Acho que não entendi. ='

Daniela Dias Ortega disse...

Não entendi mesmo! You know why. E não me diga que é preguiça e desinteresse!