terça-feira, 18 de novembro de 2008

JIGSAW FALLING INTO PLACE

Sobre alguém
A tarde estava cinzenta, chuvosa. Ele estava se sentindo afogar na sua mórbida tentativa de vida. Não tinha amigos. Sua família estava longe. Sua vida uma tempestade. Ele, tão habituado a essa tempestade. E no afogar a esta amargura ele não demonstrava nada além de indiferença. Uma indiferença descomedida. Houvera, outrora, o esboço a entrega à emoção. Mas dele tudo podiam esperar. Da mentira mais insana e inoportuna à insensatez mais incomensurável. Via sua vida em fragmentos, sem sequer uma só nítida imagem. Sofria calado, num silêncio ensurdecedor. Não mais raciocinava, apenas divagava em ações não mais do que meramente expectantes. Vagueava em busca; busca esta incessante e sempre sem êxito: não sabia bem pelo que procurar. Afinal, desde que se perdera não mais enxergava com exatidão, com uma visão costumeira. Havia se acostumado com o mundo cru, com os piores dos sentimentos. Observava as pessoas, a cidade que morava. Tudo tão gélido que se sentia compreendido. Gostava de se sentar no metrô e fazer viagens sem rumo, naquela busca. E o que mais nele doía era aquela certeza latejante: estava fadado a ser este ser nada mais além de expectante. Expectante de vida, de significância. Estava fadado ao acaso, ao descuido do mundo. A chuva caia, incessantemente. Fria, cinza, compactuante. Do último banco do ônibus, numa sempre inválida tentativa, divagava mais uma vez. E se via no afogar. No afogar da amargura e das palavras dilacerantes.

Not just once, not just twice..............................................