terça-feira, 9 de setembro de 2008

ENSAIO

Para Caio Fernando Abreu

Um pensamento imerso. Ou vários pensamentos. Uma mesa. Dois conhecidos de tão longa data parecem estranhos que praticamente acabaram de se conhecer. O da direita brinca com a comida. O outro amedronta-se com o enorme silêncio que os afligem. Talvez chova sob este grande luar, diz o da direita levando à boca um bocado de comida. Após um breve silêncio, ele faz um pequeno gesto apontando para o pingo no vidro da janela, não falei!, diz completando. Sabe, eu queria muito aquelas tardes brancas sujas negras de volta, era tudo tão bom, diz o outro. O da direita balbucia algo ininteligível e diz precisar ir ao banheiro. Quando o da direita se levanta e caminha até a porta branca do fim do corredor, o outro sussurra Eu que te amo tanto e que tenho só a mim para ouvir a este grande grito que se repete a cada encontro nosso esta ansiedade imensa esta vontade imensa esta, você está falando sozinho?, diz o da direita sentando-se à mesa. Não, estava apenas cantarolando uma canção antiga de amor que fala mais ou menos assim Eu que te amo tanto e que, e o da direita arregala os olhos e o outro interrompe a falsa música e começa a dizer que era só uma música, Porque se assustou tanto?, quê? pergunta o da direita, você, você arregalou muito os olhos, não me assustei só achei estranho. O outro se volta a seus pensamentos. O da direita, num ato de coragem pede para que o outro lhe diga tudo o que estiver em sua mente, Agora?, o outro indaga, sim, agora, tudo. Eu te amo, diz o outro e o da direita derruba uma taça de vinho e pergunta o que você disse? e o outro pergunta porque é que você está fazendo isso? e o da direita diz que um amor assim não existe, que eles se conhecem há longa data e que nunca havia acontecido algo entre nós e o outro diz que eles se beijaram uma vez em 1968 e o da direita diz que não se lembrava e que Agora em 1982 era diferente, além do que somos homens e homens não podem amar um ao outro, e o outro diz para que ele cale a boca porque amor não escolhe sexo raça cor e então pergunta você não sente falta daquelas tardes brancas sujas negras onde a gente bebia fumava cheirava e vivia toda a essência da revolução do róque? o da direita diz que gosta de se lembrar, mas que lembrava-se apenas de tardes amareladas azuladas esverdeadas vermelhas e começa a rir muito e o outro não se contém e começa a rir então e o da direita diz que não fazia isso há muito tempo e o outro ri e diz aproveita que esta é da boa e o da direita passa a ver o outro em várias camadas e começa a se ver dizendo eu também te amo e quero te amar, mas o outro cai, e o da direita continua falando e diz sentir sim falta das tardes brancas sujas negras e abaixa-se para bater no rosto do outro, ele abre os olhos e pergunta o que aconteceu?, você caiu. O da direita diz precisar ir embora porque acabo de me lembrar que deixei roupas no varal e o outro pede para ele ficar e ele diz não posso pois a chuva vai molhar minhas roupas e o outro diz que durante sua vida a chuva vem molhando suas roupas, se é que me entende, e então o da direita diz que infelizmente ele não é calmaria nem estiagem e o outro então diz pode ir embora e por favor fecha e tranca a porta e passe a chave por debaixo do tapete porque você não vai mais voltar aqui e o da direita diz que tudo bem e vai embora. O outro senta-se no chão encarpetado de sua sala e bebe a noite inteira e fica imerso nos seus pensamentos e se torna o pensamento e começa a dizer que amor não existe nunca existiu só existem interesses eu mesmo já amei três vezes mas amor não existe.

4 comentários:

T. Berkowitz disse...

Texto foda, pra variar né!
É incrível como você consegue fazer com que o leitor entre totalmente na cena.
AMEI. De verdade.

Quero ler seu livro *_*. Me deixou com vontade!

TE AMO (de verdade também)

Daniela Ortega disse...

Eu imaginei um lugar bem fresco, um cenário com umas cores mais neutras, tipo vinho, marrom.
e já que a gente conversou sobre Desperate uma vez... eu juro que vi a Bree em um personagem, não pelo modo perfeitinho, mas sei lá, poético, algo parecido com isso. e vi o outro.. não me lembro se 'o da direita' ou 'o da esquerda' como a Susan Mayer, indeciso, afobado, dramático. sempre fugindo da felicidade, talvez.

é a minha interpretação da primeira leitura. rs.
;)

mari_bondo disse...

nossa, muito bom. confesso que fiquei meio perdida, mas isso acaba tornando o texto muito bom. sei lá, você escreveu de um jeito diferente. gosto disso =)

Diego de León disse...

é lindo e triste... como aquelas tardes brancas...