terça-feira, 12 de agosto de 2008

ENTRE FICÇÃO E REALIDADE

I
Hoje me atualizei dos posts atrasados dos blogs que acompanho. Tantas pessoas falaram nos últimos dias sobre amor. Amor. amor. Não merece letra maiúscula, pois foge às regras. Não merece nem sequer um ponto de apoio porque o amor, o amor, o amor me toma as palavras. É banal, é insensato. É o mais paradoxal dos sentimentos humanos. Sabe, o amor. Temática livre de tantas composições. Já amei. Amo, desamo. Não amo. Amo novamente. Não sei o que digo; assumo, presumo, me redimo. Sempre que tento falar sobre o amor sinto esta pausa na minha própria consciência. Na minha mente, no meu mundo interno. Pode ser pelo simples motivo de que o que eu já conheci como amor, o amor dos poetas e músicos, foi apagado como a ponta do meu último cigarro: lentamente, esfregado no meio de cinzas. Ah, não, esta não foi a última vez que apaguei um cigarro. Então...
II
Porto Alegre, 14 de março de 1995*
Ontem estive conversando com Caio Fernando Abreu. Ele me dizia o quanto era difícil a vivência neste mundo corriqueiro principalmente com a doença que está lidando. Me falou de cores, cheiros. Sentia a vívida imagem da bela Isabele no seu piano de cauda longa, com o cigarro dentre os dedos, com a xícara de chá despontando à ponta, com aquela ligeira fumaça inundando a sala com o doce cheiro de camomila. Ele descrevia a altivez daquele cômodo: paredes com o mais caro dos papéis de parede de Londres - um azul pálido que contrastava com a madeira de mogno que fazia o acabamento -, um grande lustre do século XVI (vindo diretamente de um Castelo português) e a beleza incomensurável de Belle. A pele branca da dona do pensionato fazia jus à exuberância que exibia em sua pose. E foi depois de suntuar tanto sua amiga e o local que morou por anos que Caio começou a me dizer de seu antigo amor. E me falou, e me falou.
E consigo enxergar tudo nos contos que estou lendo*.
III
Eu sou insensível, fico sem palavras, não sei reagir a elogios, sou bruto, insano, chato e o principal: odeio me descrever. E como já utilizei tais palavras, peço licença para utilizá-las novamente: I don't know what to do with myself*.
* Data fictícia; O Ovo Apunhalado; White Stripes.

2 comentários:

starf***er disse...

Eu geralmente confundo Caio Fernando Abreu com João Cabral de Melo Neto. Na verdade, eu confundo pessoas com nomes grandes. Mas o engraçado é que já presenciei alguns diálogos entre essas duas figuras, sabe? De qualquer modo, como você manteve o Caio ocupado, tive que conversar com o, não menos importante, Joãozinho. E se ele tivesse lido seu post certamente te diria:

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
O amor comeu metros e metros de gravatas.
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus.
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão.
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."

E sabe que eu faço das dele as minhas palavras?

Aguardo o sonho.

Lu disse...

é, o amor.

não merece letra maiuscula.
ainda tento defini-lo, ainda tento decifrá-lo.

Sei que soa bem 'frio', mas nem sei se acredito nele.
Tanta contradição, tantos paradoxos, é muito incerto, muito instável, muito doloroso.
tem gente que passa 25 anos do lado de outra pessoa, sofrendo, chorando e continua unido. Talvez seja amor, talvez instinto.

não sei, nimguem sabe.
talvez o amor exista, mas com certeza, a gente confunde ele com muita coisa.