sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O DILEMA DO SOL

- Pai, o sol está nascendo do lado errado. Que legal, eu nunca tinha visto. Pai, como que tá acontecendo isso?
- Luana, estamos numa época onde tudo é possível, respondeu o pai sem dar o mínimo de atenção ao que a filha dissera, respondendo com descaso e sem minúcia às palavras ditas.
- Pai, olha, o sol sumiu e foi pro outro lado. O lado certo. Como isso é possível?
Ao terminar tal frase, a menina percebera que o pai fazia uma curva e o que inicialmente vira nada passara além do reflexo do sol no vidro do carro. Por um instante a menina confiara no pai, pensara que as coisas eram tão mutáveis que qualquer possibilidade seria viável. Afinal, até o sol tinha mudado o seu nascer. O sol, tão enorme, tão majestoso, imenso, o rei. Luana pôs-se a pensar. Colocara em questão tudo o que a partir de então veio de seu pai. Passara a duvidar de questões triviais.
- Luana, já são 10h, hora de ir pra cama, dizia ele com o pensamento metido em outra coisa, sem a paixão que um pai deveria ter, sem o pulso que precisava demonstrar.
A menina voltava seus olhos para a televisão assim que o pai finalizava questão. Ela perdera o respeito por ele. No auge dos seus dez anos, dez incontáveis anos de palavras desmedidas e impensadas, ela percebera que jamais fora amada. Há muito tempo lembrara-se de ser pelo menos cuidada, mas amor não. Nunca recebera. Desde o episódio do carro pode-se notar Luana numa metamorfose acelerada. Passou de dez pra trinta anos em dias. Conquistara uma amargura e ódio pela vida que jamais imaginara. Tinha plena consciência do que dizia e do que fazia. Era uma passageira da vida, graduada em desmedido descaso. Fora enganada e nunca perdoara seu pai. Seu pai. Sua única fonte na vida. Única fonte que sua sede ansiava em sorver-se e que de repente percebera que a água não era tão límpida e pura como pensara.
Passados reais vinte anos, recebera pelo fim da madrugada a notícia de que seu pai morrera. A pessoa de sua vida morrera. Quem moldara aquela amarga alma. Quem moldara o âmago daquele ser.
Luana deitou-se em sua cama e, onde havia uma janela com um espelho à frente foi sentir mais uma vez o gosto de sua primeira vez, de sua primeira e única decepção. De onde estava enxergava o sol nascer errado e então provava de sua verdade. De que tudo em sua época era possível.

3 comentários:

Joana disse...

quando somos crianças aprendemos a depositar toda a confiança e credibilidade em nossos pais. quando há fraqueza materna ou paterna, acabamos nos tornando fracos também. muitas vez um deslize, meio de repente, nem perceber os pais podem acabar com uma vida inteira.

Gaby disse...

não sabia q escrevia em terceira pessoa tb, narrativa... mtoooooooooooo bom! Na vida é assim. Às vezes as pessoas fazem tudo certo, mas basta uma coisinha errada p nos decepcionarmos... Uma questão sem resposta, uma dúvida no ar? rs.... Bjux!

mari_bondo disse...

amei o texto, lucas =)